Pela segunda vez em pouco mais de dois meses, o ex-presidente dos EUA Donald Trump foi indiciado criminalmente, agora por ter mantido consigo documentos secretos do governo depois de deixar a Casa Branca. A acusação, que será formalizada na próxima terça (13), resultará em um processo que pode ocorrer enquanto o republicano disputa a próxima eleição presidencial.

A denúncia tem 37 acusações —31 delas por “retenção intencional de informação de defesa nacional”, crime previsto pela lei de espionagem com pena máxima de 10 anos. Há ainda conspiração para obstrução de Justiça, com pena máxima de 20 anos; retenção de documentos ou registros, pena de 20 anos; ocultação corrupta de documento ou registro, 20 anos; ocultação de documento em investigação federal, 20 anos; esquema para ocultação 5 anos; e falso testemunho, 5 anos.

“Os documentos confidenciais que Trump armazenou em suas caixas incluíam informações sobre as capacidades de defesa e armamentos tanto dos EUA quanto de países estrangeiros; programas nucleares, vulnerabilidades potenciais dos EUA e seus aliados a ataques militares; e planos para possíveis retaliações em resposta a ataques estrangeiros”, diz a denúncia, que veio a público nesta sexta-feira (9) e apontou que havia documentos armazenados em um salão de festas e até em um banheiro de sua casa.

“A divulgação não autorizada desses documentos pode colocar em risco a segurança nacional dos EUA, as relações exteriores, a segurança militar e fontes humanas, bem como a continuidade da viabilidade de métodos sensíveis de coleta de inteligência”, diz o documento dos promotores.

A acusação tem uma camada a mais de complexidade: o processo corre na Justiça federal, após investigações do Departamento de Justiça, órgão subordinado ao presidente Joe Biden —principal adversário de Trump na corrida à Casa Branca em 2024. O democrata, porém, afirmou que não falou e nem pretende falar com o secretário de Justiça, Merrick Garland, sobre o caso.

O caso de agora possui acusação mais robusta do que a que colocou Trump no banco dos réus pela primeira vez, em abril, em Nova York, sob a acusação de falsificar registros comerciais ao tentar esconder a compra do silêncio de uma atriz pornô na eleição de 2016.

Entenda as acusações contra Trump e as possíveis consequências.

QUAIS SÃO AS ACUSAÇÕES?
Trump foi indiciado devido ao caso dos papéis sigilosos que ele levou para seu resort na Flórida após deixar a Casa Branca, em 2021, mas que deveriam ter ficado nos Arquivos Nacionais em Washington.

Poucas semanas após a posse de Biden, o governo já havia contatado Trump para tratar dos documentos. Em janeiro de 2022, o republicano entregou 15 caixas aos Arquivos Nacionais, com 197 papéis sigilosos, 30 dos quais ultrassecretos. Segundo o FBI, um acesso não autorizado a esse material poderia “resultar em dano à segurança nacional”, com documentos apontando “fontes clandestinas” que poderiam descrever operações e técnicas de agentes de inteligência no exterior.

Assim, autoridades pediram uma investigação formal sobre o manuseio dos documentos. Em agosto de 2022, uma operação do FBI em Mar-a-Lago apreendeu cerca de 13 mil documentos que não haviam sido entregues, e cem deles estavam marcados como confidenciais. Trump nega quaisquer irregularidades e afirma ter retirado o sigilo dos documentos ao deixar o governo, mas não há registro disso.

Trump abriu os documentos secretos a pessoas sem credenciais de segurança em pelo menos duas ocasiões. Em julho de 2021, no Trump National Golf Club, em Nova Jersey, o ex-presidente deu entrevista a um escritor, um editor e dois funcionários em que mostrou e detalhou um plano de ataque ao Irã que disse ter sido preparado pela Defesa americana.

Na conversa, ele reconhece que as informações eram confidenciais. “Como presidente, eu poderia ter retirado a classificação, mas agora não posso mais, mas isso ainda é um segredo”, diz ele, segundo gravação.

Em outra conversa, que a denúncia diz ter ocorrido em agosto ou setembro de 2021 no mesmo clube, ele mostrou a um apoiador político um mapa confidencial de uma operação militar e disse que não deveria compartilhar aquela informação.

Segundo a denúncia, os documentos estavam guardados de forma descuidada em diferentes locais, de um escritório, um depósito e o quarto do republicano até um salão de festas e um banheiro. Entre janeiro de 2021 e agosto de 2022, quando ocorreu a operação, houve mais de 150 eventos em Mar-a-Lago, incluindo casamentos estreias de filmes e encontros de arrecadação de fundos, com milhares de pessoas que poderiam ter tido acesso aos documentos, segundo os promotores.

A denúncia por violação da lei de espionagem não quer dizer que Trump era um espião, mas essa legislação inclui, na seção 793, a “coleta, transmissão a uma pessoa não autorizada ou perda de informações pertencentes à defesa nacional e a conspirações”.

Um de seus assessores, Walt Nauta, veterano da Marinha, também foi indiciado. Ele apareceu em registros de câmeras de segurança movendo caixas com os arquivos secretos em diferentes ocasiões, a mando de Trump, segundo a denúncia federal.

COMO ESSAS ACUSAÇÕES VIERAM À TONA?
Foi o próprio Trump quem revelou que havia sido acusado, com publicações em sua rede social, a Truth, e em vídeo, que depois foram confirmadas pela imprensa americana —o Departamento de Justiça ainda não se pronunciou oficialmente.

Não foi nem a primeira vez que ele fez isso.
Com grande habilidade para fazer a conversa gravitar em torno de si, Trump também avisou em março que seria indiciado pelo caso de Nova York. Na ocasião, disse que seria preso e convocou protestos. Quando o FBI fez a operação em Mar-a-Lago, foi o próprio Trump quem trouxe o assunto a público. Assim, ele consegue angariar apoio dentro do Partido Republicano ao se colocar como alvo de uma “caça às bruxas” e mobiliza milhões de dólares em doações para sua campanha.

Fonte: Folhapress
Foto: Arquivo

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